O estado de Goiás contabiliza atualmente 71.337 crianças e adolescentes submetidos ao trabalho infantil. Os números são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC) referente a 2024.
O volume de ocorrências coloca o estado na oitava posição nacional. Apenas a região metropolitana de Goiânia concentra mais de 15 mil desses registros, revelando um cenário de vulnerabilidade nos grandes centros urbanos.
Para a juíza Antônia Helena Taveira, gestora regional do Programa de Erradicação ao Trabalho Infantil, a pobreza e as condições socioeconômicas são os principais motores dessa realidade em todo o Brasil.
Em Goiás, o cenário possui características próprias devido à força do agronegócio. A magistrada destaca que a participação de menores é expressiva na pecuária e no funcionamento da economia familiar do interior.
Já na região metropolitana, o fator determinante para a exploração é a alta taxa de informalidade. O trabalho precoce e sem garantias legais se concentra em setores específicos da capital:
Feiras livres, com grande presença de jovens.
Oficinas mecânicas.
Comércio geral e prestação de serviços sem vínculo formal.
Apesar do número elevado apontado pela pesquisa, a juíza alerta que os dados oficiais não refletem a quantidade de processos na Justiça ou as autuações da fiscalização trabalhista no estado.
A subnotificação ocorre porque as denúncias são escassas e o problema costuma ser ignorado.
"Aqui para nós, a tradição de que é melhor estar trabalhando do que estar nas ruas ainda é muito importante", explicou a magistrada sobre o peso cultural.
O modelo de exploração também sofreu modernização, saindo das ruas e invadindo a internet. A Justiça do Trabalho alerta para a perigosa "glamourização" da profissão de influenciador digital entre os mais jovens.
O trabalho com monetização nas redes sociais traz riscos diretos ao desenvolvimento, incluindo cyberbullying, exposição da intimidade e até exploração sexual maquiada por coreografias.
"A partir do momento em que você tem que produzir conteúdo, cumprir uma agenda, isso ocorre em detrimento da educação e do lazer", alertou Taveira.
Para tentar conter os abusos, a Justiça já busca exigir autorização legal prévia para essas atividades remuneradas.
O sistema de proteção busca agora uma maior integração das políticas públicas sociais. O objetivo principal é garantir o acesso permanente dos menores à escola, promover o acompanhamento familiar e combater as raízes da pobreza.