Brasil Meio Ambiente
Deputado sugere abater tubarões em Pernambuco e especialistas rebatem: “ideia absurda”
Luciano Bivar defendeu a medida após dois novos ataques no litoral do estado. Integrantes de comitê de monitoramento e pesquisadores alertam para risco de desequilíbrio ambiental.
02/06/2026 15h05 Atualizada há 2 semanas
Por: Cleyber Carlos

O deputado federal Luciano Bivar (MDB) gerou controvérsia ao sugerir o extermínio de parte da população de tubarões em Pernambuco. A declaração ocorreu após dois banhistas sofrerem ataques consecutivos nas praias de Boa Viagem, no Recife, e de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, no último domingo (31) e segunda-feira (1º).

A proposta do parlamentar foi recebida com duras críticas por especialistas, que classificam a medida como ineficiente e prejudicial ao ecossistema marinho.

A proposta do parlamentar

A sugestão de Bivar foi inicialmente publicada em um artigo de opinião. No texto, o deputado argumenta que houve uma alteração no bioma local e um suposto aumento na proliferação dos predadores. Ele defende que, sem o controle populacional, a fauna marinha da região e os banhos de mar desaparecerão.

Para justificar a ideia, o parlamentar citou o abate experimental de búfalos autorizado pela Justiça em Rondônia e a caça de elefantes no Quênia. Bivar afirmou ainda que pretende consultar ambientalistas para estruturar um projeto de lei sobre o controle do ecossistema.

O que dizem os especialistas

Danise Alves, secretária executiva do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), classificou a proposta como absurda e ecologicamente deturpada. Segundo ela, os incidentes no Grande Recife envolvem principalmente os tubarões das espécies tigre e cabeça-chata.

A especialista explicou que o tubarão-tigre é migratório, o que tornaria o extermínio local ineficaz, enquanto o cabeça-chata habita águas rasas. Por serem predadores no topo da cadeia alimentar, a eliminação desses animais causaria uma superpopulação de outras espécies, prejudicando o equilíbrio ambiental, a pesca e o turismo.

O professor Paulo Oliveira, do departamento de Engenharia de Pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), reforçou que o extermínio de espécies não é solução. Ele ressaltou que o tubarão não é um animal exótico ou invasor, e que os incidentes podem ser uma resposta às alterações no habitat marinho.

Monitoramento e situação atual

Em vez de abates, pesquisadores defendem o investimento em educação ambiental e pesquisa. O governo estadual planeja retomar o monitoramento das espécies no mês de junho. O projeto prevê a captura dos animais para a implantação de chips e a instalação de redes acústicas no mar, permitindo o rastreamento dos tubarões que se aproximarem das áreas de risco.

Com os dois episódios recentes, nos quais um menino de 11 anos e uma jovem de 19 anos perderam parte das pernas, Pernambuco registra quatro vítimas de ataques de tubarão apenas neste ano. Em janeiro, um adolescente de 13 anos morreu após ser mordido na Praia Del Chifre, em Olinda.